
Lua
teimosa, não saía do céu e já ia dar meio-dia. É que o sol
não tinha aparecido, atrasou-se sei-lá-eu o porquê.
Daí a
Lua viu o céu assim, todo azulado e ocupou o espaço mais e
mais até esponjar-se toda e ficar. Mas lugar de lua não é
neste céu de meio-dia, era o que
diziam as nuvens, algumas irritadas, outras nem tanto e
outras nem nada diziam, só nuvavam.

Mas a Lua não se importava, não ligava, não dava ouvido a
nada, até porque
Lua não tem ouvido mas escuta e muito bem.


Ficava no céu e pronto.
Até que achava muito bom ver o
dia nascer de vez em quando.
Era época de lua minguante e por isso, andava a Lua
tão fina de quebrar; meia-lua,
meio-dia, meio clara meio escura, vivendo o espaço do Sol.
Bem, mas como não estava acostumada a ficar assim, acordada
de dia, danou a Lua a bocejar... abrir aquela boquinha
disfarçada, depois aquele bocão de Lua quando está com
sono... por descuido, engoliu até algumas nuvens e brincou
de algodão-doce no céu. Ali, pestanejou e dormiu.
Dormiu e sonhou.
O sonho da Lua minguada encheu-se de Sol.
Sonhou pipa,
pássaros, poesia. Sonhou cisnes, saveiros e
sereias. Sonhou várzeas, vidas e ventos. Sonhou lírios
e lábios.
Sonhou liberdade.
E o sonho, de tão sonhado, brincou enrolado em
estrelas, dependurou-se em arco-íris, balançou-se qual
criança feliz.


Iluminou campos e rios. Então, imensamente nova, a Lua
acordou.
Com o entreaberto do olho, pôs-se a rir (aquele risinho de
dentro que ninguém sabe que é riso).
Achou engraçado todo mundo esperar o Sol. E ficou a Lua,
teimosamente no céu de meio-dia que já quase a pertencia.
Bem verdade que uma tarde era vinda posto que a Lua havia
adormecido por uma hora e alguns outros minutos que não sei
bem o quanto. E uma noite logo surgiu e de novo o
dia...
As primaveras foram vindo e indo.
Os invernos e os verões.
Outonos varavam.
Era um crescer e um minguar, um encher e um novar sem fim.

A cabeça dos "lá-de-baixo" não entendia nada.
- Afinal, por onde andaria o Sol?
Umas bocas reclamavam. Alguns olhos só olhavam. Outras
pernas só passavam e teve quem nem sentisse nada diferente.
E foram parando de reclamar. Foram parando de olhar até que
foram se acostumando e se acomodando sem o Sol.
As
plantas e os bichos também muito sentiram,
depois nem tanto até que aprenderam a viver com os raios
prateados da Lua que tomava cada vez mais conta do céu.
O tempo foi passando.
(.....)
Um dia desses, em que a Lua já havia feito ninho no céu pois
tinha pertences de lua por toda parte: orvalho pros cabelos
e batom prateado, vestidos rodados e coloridos, sapatos de
saltos os mais variados além de outros apetrechos...
pois é... nesse dia, o Sol apareceu.
Estava meio avermelhado de vergonha, meio atrasado,
quer dizer, muito atrasado... - quantas luas haviam passado?
Muitas luas. Poucos sóis.
Ele foi logo dizendo que...mas... sabe? Bem... não ia
demorar, porém, sabe como é que é, né? Tão somente, todavia,
contudo, estava cansado; e agradecia à Lua por ter lhe dado férias mas... agora poderia
deixá-lo a sós com o céu...
- A sós, Sol?

E a Lua dizia que os "lá-de-baixo" não sabiam
mais quem ele era, o que fazia... tinha sido muito tempo,
muita hora, ora ora!
Dai que o Sol, educadamente, foi conversando com a Lua ,
contando-lhe bonitas histórias de raios e luzes que existiam
do outro lado do mundo. E, como ninguém resiste a uma boa
história, a Lua foi-se deixando seduzir e quando deu por si,
já era o Sol se abrindo no céu com toda sua cor aboborada,
alaranjada, avermelhada.
Com todos os seus raios, seu poder e sua magia.
Foi acordando as pessoas daquele sonho longo de Lua, foi
abrindo as gavetas, as roupas e as caras dos outros, foi
trazendo sorriso e encanto; foi deixando para trás um outro
tempo.
Expandiu-se.
Abraçou o céu.
Raiou.
(.....)

Era assim que a minha avó explicava para mim sobre aqueles
dias nublados em que havia lua no céu.
Autora: Silvana Lima
