Pincelíneo é um pincel. Um pincel que pinta, que trabalha sozinho, que não precisa de mão que o conduza. Ele, é claro, sabendo disso, aproveita para sair pintando mundo afora.
Pincelíneo mora em um planeta que ele próprio criou - Planetícius. Imagine só que tudo que existe em Planetícius foi Pincelíneo que criou. Ele é meio mágico: tudo o que desenha e pinta, adquire vida. Na verdade ele é um pincel mágico. Pincelíneo ouviu dizer que existem mais pincéis mágicos por aí, e gostaria muito de conhecê-los.



 

Planetícius é um planeta belo, alegre, cheio de vida, igualzinho ao seu criador. Pincelíneo parece um pincel normal. Na ponta estão os pelinhos, fixados no bastão. É no bastãozinho que está todo o segredo de Pincelíneo: todas as cores do mundo estão ali reunidas, para pintar, Pincelíneo necessita apenas de água que é sugada pelos seus pelinhos, molhando a cor do bastãozinho que está na vez.

Este pincel mágico funciona como uma vela, contudo, ele nunca se acaba, pois ele repinta o bastão cada vez que esse diminui um pouco.
 

Dia após dia, Pincelíneo diverte-se trabalhando: pinta rosas com bolinhas, pinta puma listrado, pinta cobra com florzinhas, pinta gente de xadrez ou de manchinhas verdes, azuis, amarelas e vermelhas.


Cada  coisa, cada animal, cada pessoa, pintada por ele irradia alegria.

Todos olham curiosos e satisfeitos para seu trabalho. É mesmo muito interessante ver que cada um pode ser diferente do outro. Que cada um em si tem algo de bonito para mostrar.

Um dia Pincelíneo pensou em tirar férias. Queria passear um pouco, conhecer novos planetas, ver como outros pincéis pintam suas criações. Bem rapidinho criou um avião e saiu voando para uma direção qualquer.
Voou muito, voou longe, voou tempo.
No caminho pintou algumas estrelinhas. E água? Ora, dava uma cuspidinha para ter uma gota d'água e criava (desenhava) rapidinho tanta água quanto precisasse.. E pintava, e pintava ...




Chegou finalmente num planeta chamado Terra. Pobre Pincelíneo! Quase desmaiou quando viu tantas cores e tudo tão diferente do que ele pintava.

A cada passo, via que o pincel que havia criado o planeta Terra, pintara as coisas de um modo diferente. Quase morreu de rir quando viu que Pincerrâneo (este era o nome do pincel criador da Terra), pintara uma vaca de branco com manchas pretas, igualzinho como ele pintara uma pessoa. Que Pincerrâneo pintara uma abelha assim como ele pintara um elefante...


 

 

 

Com o passar dos dias, Pincelíneo percebeu que havia alguma coisa estranha no planeta Terra. Observou, pensou. Pensou, observou e... concluiu que o que havia de estranho eram as pessoas.
 

Não que tinham sido pintadas erradas. E o que é afinal errado? Cada um tem gosto diferente. Pincéis mágicos também têm gosto diferentes. Pudera, eles nunca se reuniram para discutirem as cores que deveriam pintar as coisas.
 

 

Mas que as pessoas eram estranhas, isso eram.

 

 

Elas andavam tristes por que o seu pincel-criador as pintara com poucas cores distintas (uns de preto, outros de branco, outros de amarelo; uns mais escuros, outros mais claros).


Pincelíneo até que achou a idéia legal de Pincerrâneo pintar tecidos coloridos que as pessoas penduravam, amarravam ou vestiam em seus corpos. 

Ficava bonito mesmo quando uma pessoa branca usava roupa vermelha, ou uma pessoa preta usava roupa amarela!

 

 

O que Pincelíneo não entendeu e até ficou chateado foi saber que as pessoas brancas e pretas brigavam entre si, só porque tinham cores diferentes.

Isso não acontecia em Planetícius, pois lá cada uma tinha uma cor diferente e cada um gostava da sua cor e respeitava a do outro.
Quando Pincelíneo viu que os pretos não podiam morar entre brancos; que não conseguiam trabalho juntos aos brancos, ficou revoltado, irado mesmo. Logo ele que nunca ficara bravo.

O que Pincelíneo queria era ver todas as pessoas felizes, assim como os animais e as plantas. 

Ele concluiu que o problema na Terra estava mesmo com as pessoas. Então resolveu ajudar: como meu colega Pincerrâneo havia criado muita água, pensou em usá-la para dar um "retoquezinho" nas pessoas.

Decidiu pintar algumas pessoas de azul, outras de verde; umas de vermelho-claro, talvez de amarelo-forte, ou de xadrezinho que era o seu tipo preferido.
Cuidadosamente tentou molhar seus pêlos no mar para seu trabalho, quando veio uma onda muito forte mergulhando-o nas águas e desmanchando-o no mar.

Algum tempo depois, um garoto da Terra, filho de pescador, encontrou um recado sobre um enorme rochedo. 

Às vezes era coberto pelas ondas, mas quando o mar se acalmava o menino podia ler  uma mensagem que apesar de muito bonita, não conseguia entender direito.

SENHOR PINCERRÂNEO!

Visitei seu planeta e o achei muito lindo. Só gostaria de ter visto as pessoas mais felizes: sem rivalidades, sem discriminações.
Diga-lhes, por favor, de que olhem umas para as outras e descubram quanta beleza possuem.
Venha até Planetícius para conversarmos e pintarmos juntos.
Um abraço,

                                                         Pincelíneo

                            Conto de IRIS WEIDUSCHAT