Axel Munthe foi médico e
escritor. Viveu na Suécia. Seus livros faziam enorme sucesso. Mas a
maioria dos leitores não entendia por que um médico como ele acreditava
em fadas, duendes e gnomos.
Seu trabalho mais conhecido é o livro de San
Michele, sobre sua própria experiência como médico.
Nele, Axel conta o
encontro que teve com um gnomo. Você pode conhecer a
incrível conversa
entre eles lendo a história que segue.
Estava hospedado na
casa de tio Lars. Dei boa-noite a todos e subi para o meu
quarto.
Diante de minha janela havia uma floresta silenciosa e
escura.
Acendi uma vela.

Coloquei-a sobre a mesa, deitei-me na
cama e adormeci.
De repente, ouvi
alguém mexer na mesa.
Abri os olhos.
A luz da vela estava quase
se apagando.
Mas pude ver claramente um homenzinho do
tamanho da palma da
minha mão, sentado com as pernas cruzadas em cima da
mesa.Segurava meu relógio e inclinava a cabeça grisalha para o
lado, escutando o tique-taque. Estava tão interessado que não
percebeu que me sentei na cama e fiquei olhando para ele.
Quando me viu, deixou
o relógio cair no chão, deslizou rapidamente pela perna da mesa
e disparou em direção à porta.
- Não tenha medo de
mim, espere, estou sozinho! - eu disse.
- Fique aqui para que eu
possa lhe mostrar o que há dentro dessa caixinha.
O gnomo parou e olhou
para mim preocupado:
- Não estou
entendendo nada!
Juro que senti cheiro de criança nesse quarto,
mas você já é adulto, um homem barbado! - E olhando-me com mais
atenção, continuou:
- Mas, pensando bem, você não mudou muito
desde minha última viagem à casa de seu pai. Você é exatamente a
mesma criança que encontrei um dia no quarto de sua casa. Se
isso não fosse verdade, você não seria capaz de me ver agora,
sentado aqui à sua frente. Você não me reconhece? Era eu que
punha suas coisas em ordem enquanto você dormia.
Era eu que proibia os
pesadelos de entrarem em seus sonhos. Nunca me
esqueci de seu
quarto, vivia cheio de bichos.
Você escondia todos
eles na cama. Lembra quando cismou que era uma galinha e colocou
um monte de ovos debaixo do seu colchão? Lembra quando todos os
animais fugiram do seu quarto e sua irmã quase morreu de susto?
Um morcego agarrou
nos cabelos dela, os sapos e rãs saíram pelo corredor. Ela não
parava de gritar e você acabou ficando de castigo.
Mas o pior
foi nas férias, quando a criada encontrou uma caveira escondida
em sua cama. Sua mãe desmaiou, seu pai berrou. Descobriram
que você tinha roubado a caveira do cemitério. Eles não sabiam
que você já tinha resolvido ser médico.
- Tudo isso é
verdade?
- É verdade. E parece
que você ainda mistura a realidade e os sonhos, como fazem todas
as crianças.
- Mas já tenho 27
anos! - protestei.
- Você é uma criança
grande. Só as crianças podem ver gnomos. Ande, mostre o que está
escondendo dentro dessa caixa. É algum animal? - perguntou.
- É um relógio -
respondi.
- Um relógio é o coração do Tempo.
- O que é Tempo? -
ele quis saber.
- O Tempo se compõe
de três coisas diferentes: o passado, o presente e o futuro.
- Ele fica sempre aí,
preso nessa caixinha?
- Sim, o Tempo não
descansa nunca.

Não dorme e não pára de repetir a mesma palavra
no meu ouvido.
- E você entende a
linguagem do Tempo? - o homenzinho parecia curioso.
- A palavra que ele
me diz é "velhice". A cada hora do dia fico mais velho e
cansado. E você? - perguntei.
- Você não tem medo de envelhecer
e morrer?
- Morrer? - gritou. -
Quem pôs essas bobagens na sua cabeça? Imagine só! Presente,
passado e futuro. Que besteira! Você não vê que é tudo a mesma
coisa?
Eu, se fosse você
atirava essa caixinha no rio para afogar esse gênio ruim que
está preso aí dentro. Escute bem o que eu digo: você será sempre
uma criança.
Mesmo quando tiver
seiscentos anos, como eu.
O sol já começava a
nascer.
O gnomo levantou-se,
despediu-se sorrindo e desapareceu.
( adaptação de Heloisa Prieto)