
Téo tinha nome de
príncipe, mas era filho de ferreiro. Aos doze anos, trabalhava todos os
dias ao lado do pai.
Ferravam cavalos e
forjavam pás, além de instrumentos e armas.
Na pequena oficina, Téo
permanecia calado ouvindo o pai contar-lhe sempre a mesma história; as
aventuras do rei.
Artur e os cavaleiros da
Távola Redonda - como o rei crescera sem saber que era herdeiro
de um reino, como retirara a espada mágica colocada no meio da pedra
pelo mago Merlim e assim descobrira seu verdadeiro destino.
O
menino ouvia as histórias diariamente e elas nunca
perdiam o encanto.
Mas às vezes
entristecia porque dificilmente conseguia repeti-las com a fluência do
pai. Quando tentava, gaguejava muito, as outras crianças riam e ele se
sentia só e envergonhado.
Por isso escondia-se
atrás da colina. Ficava imaginando como seria viver entre magos e fadas,
ser sábio e poderoso, ser filho de um rei.
Mas depois sempre
desistia , preferia ser pobre, gago e filho do velho Tomás, a quem amava
profundamente.
Tomás o velho ferreiro,
acreditava na lenda da fonte. Dizia que anualmente Merlim e o rei Artur
vinham visitar a colina e beber a água da fonte da vila.
- Na tradicional noite do meio do
verão, Téo recolheu-se em sua cama com as costas feridas de tantas
pedradas.
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-
Apagou
a vela e passou a noite em claro tentando ouvir os ruídos da cavalaria
do rei, conforme dizia a lenda.
- Quando as primeiras luzes da manhã
começaram a surgir pela janela, Téo levantou-se da cama e decidiu sair.
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- Queria ficar só.
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-
 Caminhando
Téo ouviu o som de um pássaro. Sentiu uma leve brisa tocar-lhe a nuca.
- Olhou para os céus e viu as
belíssimas asas de um falcão. Sorrindo, acenou para a
ave.
- Subiu então o pequeno morro onde
ficava o poço.
- Ao longe, percebeu um vulto
arrastando-se em sua direção.
- A figura se movimentava muito,
muito lentamente. As costas curvadas, os cabelos brancos e ralos, a
barba fina e comprida.
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O velho apoiava uma das mãos em uma
bengala, e na outra carregava um caldeirão de ferro.
- O menino correu até ele,
oferecendo-lhe auxílio.
-
- - Obrigado, pequeno amigo.
Poucos perderiam seu tempo com um velho como eu.
-
- Téo sorriu e o velho
continuou:
- - Vejo também que você é muito
inteligente.
- Mas há dor em seu coração.
- Temendo que o velho risse de sua
gagueira, o menino não respondeu nada. Apenas ofereceu -lhe água que
acabara
de retirar do fundo do poço.
-
- O velhinho encarou o menino e
disse:
- - Espere.
- Eu é que quero que você prove um
pouco da minha água.
- O pequeno ferreiro sabia que tinha
carregado um caldeirão vazio. Será que estivera falando com um velho
louco?
- Ele lhe parecera tão normal!
- Mas quando Téo tocou o caldeirão
viu que ele estava cheio de água mais límpida que já vira.
-
- Mergulhou o rosto nela e
bebeu. Sua sede era enorme. Ele bebia, bebia, e a água parecia não
terminar.
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 -
-
Sentia as gotas acariciando sua
garganta, enchendo seu corpo todo com tanta força, a mente com tanta
clareza e compreensão . . .
-
- - Merlim - disse o menino
espantado, a voz soando tão pura e natural quanto à água que ele
terminara de provar. - Merlim, é você!
-
- O manto azul voava e parecia
não ter fim. As mãos agora eram fortes e repletas de anéis; no lugar da
bengala, um cajado engastado de pedras preciosas.
- O rosto era jovem e o sorriso
divertido.
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Merlim levantou as mãos em um gesto
que parecia alcançar os céus, e o pequeno ferreiro viu surgir atrás do
velho poço um grande amontoado de nuvens, e, pairando sobre elas, uma
pequena ilha ocupada por um castelo cujos portais
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lentamente se abriam.
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- - Venha pequeno ferreiro. Quero
que conheça o meu mundo.
- E que depois volte para sua terra
e conte ao seu mundo as histórias da nossa tradição.
- Não deixe que se
esqueçam de nós.
- O pequeno ferreiro nunca se
esqueceu de sua viagem a Avalon. De seu encontro com o
rei Arthur.
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- Da beleza da rainha Genoveva
e do fascínio que sentiu diante de Morgana, a fada de sorriso
irresistível e olhos negros, ariscos e perigosos.
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Já era quase meio-dia quando Tomás se
espantou com a chegada do filho falando e rindo sem parar.
- - Você estava certo! - ele
repetia. - É tudo verdade!
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- Tomás sorriu e levou o menino até
um canto da oficina onde havia uma mesa. Depois de empurrá-la abriu uma
portinhola no chão.
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- Dali retirou uma ferradura de
prata.
- - Meu filho, quando se encontrar
novamente com o rei Arthur,
- quero que lhe devolva isto. Eu já
consertei.
-
-
Depois
abraçou o menino carinhosamente, entregou-lhe um saco de moedas de
ouro e disse:
-
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- - Agora parta e cumpra o
seu destino. Muitos o aguardam. O mundo precisa de suas histórias.
- E foi assim que um pequeno
ferreiro se tornou um dos mais importantes mensageiros de Avalon, cujas
histórias continuamos a repetir, tantos anos depois.
( História baseada na lenda
inglesa de Cadbury Hill, século XVII )
  

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